seis da manhã; despertador. era o tempo dela vestir uma blusa pueril e uma saia comprida e grossa, amarrar o cabelo, botar os óculos, coar o café pra tomar com pão e queijo. em seguida, botar as coisas na maletinha e ir para o ponto de ônibus. nem demoravam mto, mas iam cheios – horário de ir trabalhar! mas ônibus lotado não era problema para ela. pelo contrário, era seu maior prazer.
era onde costumava ter o contato mais íntimo com outras pessoas – homens, pra ser mais preciso. ia deslizando em meio aos passageiros em pé, vagarosamente, para sentir todos cheiros, toques e respirações. era tudo tão inebriante que até fechava os olhos... também, de olhos abertos, não conseguia encarar os homens e sempre abaixava a cabeça frente a um olhar – poucos, por sinal. passo a passo, ia se esticando o quanto podia para encontrar os masculinos corpos. arrebitava suas magras nádegas querendo sentir melhor as carnes traseiras dos homens por quem passava. costumava até classificá-las: classe "a" eram as pontudas e durinhas. a classificação seguia pelas outras durinhas, largas, molengas e aquelas que eram tão magras quanto às delas que nem se sentia o toque. quanto às carnes frontais, tinha um pouco de pudor...
às vezes, parava assim que batia os olhos em algum homem sentado que a interessava. ficava lá, em pé, ao seu lado, esperando que o ocupante do outro banco saísse antes dele. Imaginava também se ele poderia se oferecer para carregar a maletinha - o que ocorria raramente, já que ela não era uma pessoa que despertava alguma motivação para receber tal ajuda. quando conseguia sentar, era o ápice! olhava para o homem escolhido e cumprimentava-o com um silencioso 'bom dia'. reparava em suas mãos, coxas, o volume entre as pernas, porque para isso não era preciso virar a cabeça para observar. vez ou outra, quando achava que valeria a pena correr o risco, ia subindo o olhar para o peito, ombros, pescoço e o rosto, mas se enrubrecia e voltava a cabeça rapidamente para baixo, ou desviava o olhar para a janela, caso o moço percebesse estar sendo observado – técnicas de escape que ela desenvolveu em pouco tempo. quando pernas e braços se esbarravam, tinha até arrepios, ficava ofegante. sentia vontade de mais, esfregava as mãos nas pernas, suspirava, mexia os lábios, mas nenhum desses sinais era suficiente para que o moço do lado se interessasse. depois tentava se conter e se contentar. era sempre assim durante essa meia hora a quarenta minutos, de ônibus da manhã.
no ônibus da volta para a casa, de novo, as mesmas situações. a diferença é que os fortes perfumes da manhã eram trocados por cheiros mais naturais de homens e que ela achava mais interessante. não fosse o cansaço do trabalho ao longo do dia, poderia aproveitar mais, mas só pensava em chegar em casa e se preparar para o outro dia. “ah, se fosse de manhã!”